
Personagens
As Vidas que Moldaram a Identidade da Cidade.

Personagens
Coronéis, pioneiros, assassinos de aluguel, jornalistas expulsos e prefeitos que derrubaram igrejas na calada da noite. A história de Bauru foi escrita por homens que acumularam poder, fizeram fortunas, desafiaram a Igreja e, muitas vezes, resolveram suas diferenças a bala.
Azarias Leite chegou em Bauru por volta de 1887 para plantar café em larga escala na Fazenda Aureópolis. Trouxe consigo o tio e sogro, o capitão Araújo Leite, e juntos se tornaram os primeiros chefes políticos da cidade. Azarias era tão influente que, segundo a lenda, conseguiu mudar o trajeto da Ferrovia Noroeste: quando os engenheiros se desentenderam com o prefeito de Pederneiras, o coronel os convidou para uma semana de fartura em sua fazenda — e a ferrovia passou a começar em Bauru. Montou banco, trouxe a comarca de Agudos, acumulou tanto poder que alguém decidiu mandá-lo matar. No dia 19 de outubro de 1910, ao atravessar a ponte de madeira sobre o rio Bauru, foi alvejado por três tiros. O assassino, Honorato, foi preso e confessou quem mandou. Mas era tempo de coronelismo: coronel não ia preso. Só o pistoleiro pagou. Quem mandou matar Azarias Leite? O mistério completa 115 anos.
O coronel Gustavo Maciel foi o sucessor político de Azarias — e tão truculento quanto. Montou uma segunda Câmara Municipal na Praça Rui Barbosa para legislar o que bem entendia. Quando o jornalista Carlos Marques denunciou o ardil no jornal, Maciel foi até a redação com o exemplar amassado na mão: "Agora você vai engolir o que escreveu". Marques, que já esperava a visita, sacou o revólver e meteu duas balas na barriga do coronel. Gustavo Maciel sobreviveu — e recusou representar contra o jornalista. "A culpa foi minha", disse ao delegado.
O coronel Manuel Bento da Cruz, prefeito de Bauru, ficou famoso por derrubar a primeira igreja oficial da cidade. A capela de pau a pique, construída em 1892 na atual Praça Rui Barbosa, estava no caminho da Rua Batista de Carvalho. O bispo de Botucatu proibiu a demolição. Numa noite de 1913, o coronel reuniu capangas e derrubou o templo a golpes de marretada. O bispo ameaçou excomungar a cidade — na verdade, interditou Bauru dos trabalhos da Igreja Católica. Manuel Bento construiu no lugar uma catedral gótica muito maior e, com o tempo, a Igreja perdoou. O mesmo coronel andava de braço dado com sua amante pelo centro da cidade, enquanto a esposa morava em Penápolis. Saiu no jornal.
João Henrique Dix doou a área do Cemitério da Saudade e acompanhou a obra com obsessão. Quando o cemitério ficou pronto, em 1908, disparou uma carabina no próprio coração. Uns dizem que sofria de depressão; outros, que sempre declarou querer ser o primeiro a ser enterrado ali. Seu túmulo, o número 1, carrega a inscrição "Orai por ele".
O vice-prefeito Américo Bloá, num ataque de ciúmes, invadiu a casa da amante, quebrou tudo, jogou os móveis na rua e tacou fogo. No processo, a mulher o inocentou. O jornalista que veio de Santa Cruz do Rio Pardo fundar o Partido Liberal em Bauru foi levado para um passeio de carro pelo coronel Gustavo Maciel — e largado em Avaí com um conselho: "Nunca mais volte para Bauru, porque eu não posso garantir sua segurança".
Esses são alguns dos personagens que construíram, transformaram ou desafiaram Bauru. Alguns têm seus nomes nas placas das ruas. A maioria, não. Nesta editoria, devolvemos nome e rosto a quem fez a cidade — para o bem e para o mal.
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